História Errada

Elogio do Engano

Em História Errada, o acontecimento central não se mostra: um atropelamento sem testemunhas. O que chega até nós é apenas o rastro; uma mulher tentando recompor aquilo que seus olhos não alcançaram. A obra nasce dessa tentativa: montar sentido quando o mundo oferece só vestígios.

Entre intuição e razão, abre-se o intervalo em que o pensamento hesita. Nesse processo movediço de conhecimento, a falácia post hoc encontra terreno fértil. Mas, às vezes, um erro conduz ao acerto, como se o engano tateasse o mundo até tocar uma verdade.

Na construção de Anouk, palavra e imagem não se subordinam: infiltram-se uma na outra. As pinturas não ilustram a história; condensam-na. Fragmentos de pensamento dos personagens figuram como frases na tela, transformando atmosfera em matéria e cor. Em História Errada, o pensamento aparece em estado bruto: tentativa, suposição, edição. O gesto de compreender permanece sempre em movimento.

Infiltração

Coca-colonização, 2025/2026. Óleo sobre tela, 150 × 180 cm. Série Infiltração.

Em Coca-colonização, o alinhamento das garrafas produz um campo visual rigoroso, quase hipnótico. O olhar é convocado a percorrer fileiras que, à primeira vista, oferecem uma escolha binária. A inscrição de palavras que remetem a posições de debate sugere um jogo conhecido, mas o ritmo dos elementos revela outro enigma: nada ali parece sujeito ao dissenso propriamente dito, tudo está preparado para adesão imediata.

O diálogo com Os Operários, de Tarsila, surge pela geometria da repetição. Onde havia rostos e singularidade, aqui há recipientes idênticos, preparados para receber e esvaziar. A produção fabril cede espaço à circulação de comportamento. A escolha, reduzida ao gesto mínimo e repetido, espelha o modelo que fragmenta a experiência e converte pensamento em resposta instantânea.

Ao fundo, um edifício atravessado por torres e estruturas de transmissão. Ele não produz mercadorias, produz códigos. É por essa arquitetura que algo se infiltra, age, desgasta. A obra permite que se veja, num só plano, a superfície do espetáculo e o ponto onde ele é fabricado. Não há destruição abrupta, apenas a lenta deterioração que ocorre quando tudo se organiza para parecer estável, mesmo enquanto colapsa por dentro.

Nesse jogo de repetições, emerge uma pergunta: o que realmente está em disputa quando duas palavras assumem o lugar de horizonte político? Talvez a obra indique que o conflito anunciado não coincide com o eixo que de fato organiza nossa vida coletiva. Há outra força em ação, mais paciente, mais eficaz, e é ela que o quadro convida a perceber.

Coca-Colonização e a Uberização do Pensamento

Em Além da Meta, a mesa promete um encontro que não se cumpre. O que se vê é um conjunto de presenças que partilham um plano, sem partilhar um horizonte. A força da cena está na desconexão: cada personagem parece entregue ao próprio interesse, mesmo quando isso fragiliza o conjunto. Pequenos atos, distrações e receios permitem que um poder sem rosto se instale, não por imposição, mas por aderência. Às vezes, ele cabe no detalhe que ninguém vê.

A mesa, um ponto de convergência, não produz vínculo. Aqui, ela apenas mantém os presentes ligados por um fio mínimo, suficiente para que ninguém escape e, ainda assim, para que nada se construa. Indivíduos distintos que seguem presos ao mesmo nó, como um rato-rei. Movem-se separados, operam isolados, e ainda assim produzem, juntos, o ambiente onde o poder respira. Talvez Além da Meta indique que certas formas de poder já não precisem da imposição explícita: basta que cada um acredite estar só.

Além da Meta e a lógica do rato-rei

Além da Meta, 2025/2026. Óleo sobre tela, 150 cm x 200 cm. Série Infiltração

acima, processos criativos

Conto gráfico História Errada, painel em madeira 200 cm x 150 cm; no centro, acrílica sobre canvas 80 cm x 60 cm

Em Big Clash, o alimento é secundário. O sorriso da atendente anuncia uma experiência antes mesmo que ela exista. É ele que organiza o desejo, projetando-o como necessidade. A lógica da cultura de consumo não depende da entrega, mas da promessa. O objeto pouco importa quando a imagem já cumpriu seu trabalho, basta que pareça verdadeiro.

Big Clash, 2025. Óleo sobre tela, 80 × 60 cm

Um Império de Narrativas

Pintura-Conto

Nas séries de Anouk, pintura e conto nascem de um mesmo processo criativo e se desenvolvem simultaneamente. Pintura-conto nomeia essa indissociabilidade, na qual imagem e narrativa convergem para síntese e unidade de efeito. Conto e pintura operam em paralelo, sem relação ilustrativa: a ficção integra a pesquisa pictórica e costura, com as imagens, o universo da obra.

Big Clash