Em Coca-colonização, o alinhamento das garrafas produz um campo visual rigoroso, quase hipnótico. O olhar é convocado a percorrer fileiras que, à primeira vista, oferecem uma escolha binária. A inscrição de palavras que remetem a posições de debate sugere um jogo conhecido, mas o ritmo dos elementos revela outro enigma: nada ali parece sujeito ao dissenso propriamente dito, tudo está preparado para adesão imediata.
O diálogo com Os Operários, de Tarsila, surge pela geometria da repetição. Onde havia rostos e singularidade, aqui há recipientes idênticos, preparados para receber e esvaziar. A produção fabril cede espaço à circulação de comportamento. A escolha, reduzida ao gesto mínimo e repetido, espelha o modelo que fragmenta a experiência e converte pensamento em resposta instantânea.
Ao fundo, um edifício atravessado por torres e estruturas de transmissão. Ele não produz mercadorias, produz códigos. É por essa arquitetura que algo se infiltra, age, desgasta. A obra permite que se veja, num só plano, a superfície do espetáculo e o ponto onde ele é fabricado. Não há destruição abrupta, apenas a lenta deterioração que ocorre quando tudo se organiza para parecer estável, mesmo enquanto colapsa por dentro.
Nesse jogo de repetições, emerge uma pergunta: o que realmente está em disputa quando duas palavras assumem o lugar de horizonte político? Talvez a obra indique que o conflito anunciado não coincide com o eixo que de fato organiza nossa vida coletiva. Há outra força em ação, mais paciente, mais eficaz, e é ela que o quadro convida a perceber.




































